domingo, 25 de abril de 2010

Reflexão: As rodas de leitura ajudam a formar leitores?

Não há quem goste de fazer aquilo que é muito difícil nem aquilo para o que não vê sentido. É assim a atividade de leitura na sala de aula. Para a maioria dos alunos ela é difícil demais justamente porque não faz sentido. A mera decifração de palavras nada tem a ver com o prazer de ler. Eis aí um desafio para os professores (que na maioria das vezes ensinam a ler, mas não são leitores): Como formar leitores desejosos pela leitura?
Para formar leitores, é preciso ser apaixonado pela leitura. De acordo com Bellenger citado por Kleiman (1998, p.15), a leitura se baseia no desejo e no prazer.



Em que se baseia a leitura? No desejo. Esta resposta é uma opção. É tanto o resultado de uma observação como de uma intuição vivida. Ler é identificar-se com o apaixonado ou com o místico. É ser um poço clandestino, é abolir o mundo exterior, deportar-se para uma ficção, abrir o parêntese do imaginário. Ler é muitas vezes trancar-se (no sentido próprio e figurado). É manter uma ligação através do tato, do olhar, até mesmo do ouvido (as palavras ressoam). As pessoas lêem com seus corpos. Ler é também sair transformado de uma experiência de vida, é esperar alguma coisa. É um sinal de vida, um apelo, uma ocasião de amar sem a certeza de que se vai amar. Pouco a pouco o desejo desaparece sob o prazer. (BELLENGER, 1978 apud KLEIMAN, 1998, p.15)



Convém ressaltar que essa descrição prazerosa feita pelo autor nada tem a ver com as práticas desmotivadoras baseadas em concepções equivocadas sobre a leitura, e não é difícil perceber que tais práticas continuam sendo perpetuadas nas escolas.
A propósito das concepções de leitura, Kleiman (1998) aponta três: a leitura como decodificação, a leitura como avaliação e a concepção autoritária de leitura. Segundo a autora, a primeira é uma prática empobrecedora que em nada modifica a visão do aluno, trata-se de atividades mecânicas de identificação de palavras no texto. Alliende & Condemarín (1987), apontam a decodificação como uma das operações parciais da leitura, mas salientam que ela não deve ser confundida com a totalidade do processo de leitura.
A segunda é “um outro tipo de prática que inibe, ao invés de promover a formação de leitores” (KLEIMAN, 1998, p.21). Nas séries iniciais, a leitura como avaliação caracteriza-se pela exagerada preocupação de aferir a capacidade de leitura dos alunos, por isso, a aula é, na maioria das vezes, dedicada exclusivamente à leitura em voz alta.
Já a terceira parte do pressuposto de que o texto deve ser abordado apenas de uma maneira e que existe somente uma interpretação possível a ser alcançada.



Essa concepção de leitura permite todas as deturpações já apontadas, que agora resumimos: a análise de elementos discretos seria o caminho para se chegar a uma leitura autorizada, a contribuição do aluno e sua experiência é dispensável, e a leitura torna-se uma avaliação do grau de proximidade ou de distância entre a leitura do aluno e a interpretação autorizada (KLEIMAN, 1998, p.23).
Isabel Solé (1998) auxilia na análise das concepções de leitura a nível mais técnico. Ela aborda os modelos hierárquicos ascendente – buttom up – e descendente – top down. De acordo com a autora, o modelo buttom up considera que o leitor processa os elementos componentes do texto de forma ascendente, seqüencial, hierárquica: letras – palavras – frases. Neste modelo o leitor só utiliza os dados apresentados no texto para alcançar a compreensão.
No modelo top down, ainda segundo a autora supracitada, a informação flui do leitor para o texto, ao qual é atribuído significado de acordo com seus conhecimentos prévios e seus objetivos para a leitura. Dessa forma,



[...] quanto mais informação possuir um leitor sobre o texto que vai ler, menos precisará se “fixar” nele para construir uma interpretação. Deste modo, o processo de leitura também é seqüencial e hierárquico, mas, neste caso, descendente: a partir das hipóteses e antecipações prévias, o texto é processado para sua verificação (SOLÉ, 1998, p. 24).
Vale salientar que a leitura é justamente o contrário das concepções abordadas por Kleiman, e não está centrada exclusivamente no texto nem no leitor como sugere os modelos buttom up e top down. Leitura é interação. Assim como qualquer atividade de linguagem, é interlocução, só que a distância, e na sala de aula precisa de mediação. É durante a interação que os leitores menos experientes compreendem o texto, a partir de conversas sobre aspectos relevantes do texto é possível também motivar os alunos a buscar e ler outros textos.
As rodas de leitura são espaços de interação e podem ser uma opção para despertar o desejo de ler, em outras palavras, elas podem ser uma estratégia para formar novos leitores. Como o próprio nome já diz, as rodas de leitura são círculos que reúnem um determinado número de pessoas em torno de um leitor-guia.
Para Vargas (1997, p. 63), a dinâmica da roda faz com que a leitura passe “a ser reconhecida, em parte como lazer, em parte como elemento formador e reformulador na tarefa de educar”. É preciso lembrar que as rodas têm por objetivo fazer nascer leitores, portanto a responsabilidade didática dá lugar a um tipo de relação mais prazerosa com o que é lido.
Assim como em outras atividades de interação entre o leitor e o texto, na roda busca-se satisfazer os objetivos que guiam a leitura. Conforme Solé (1998), a interpretação que o leitor realiza do texto depende em grande parte do objetivo de sua leitura. Assim, há que se levar em conta os objetivos da leitura quando se trata de ensinar as crianças a ler e a compreender.
Johns e VanLeirsburg (2001) ressaltam que qualquer metodologia que vise motivar leitores deve envolver pelo menos quatro pré-requisitos básicos: o ambiente, a escolha de textos que tenham um nível apropriado de dificuldades para os alunos, as estratégias de motivação e o objetivo da atividade. É evidente que a motivação para a leitura depende muito da postura do professor, uma vez que ele é mediador, é o professor que



[...] apresenta o livro, expõe e lê o texto, analisa-o, fala sobre ele, traz notícias sobre os autores, sobre novas publicações; enfim, é aquele que transita pelo mundo das páginas, que deixa o rastro de sua experiência de leitor. É o mediador entre o aluno-leitor e o autor do livro. Para que o ato do descobrimento pessoal aconteça... (ANTUNES, 2009, p. 202).



No processo de motivação e formação de leitores o professor deve estar atento para as estratégias utilizadas pelos alunos para conseguir mais eficiência na leitura. “Quando falamos de estratégias de leitura, estamos falando de operações regulares para abordar o texto” (KLEIMAN, 1998, p 49). Em outras palavras, estratégias são procedimentos, métodos, técnicas, conjunto de ações ordenadas, dirigidas à consecução de uma meta. Essas ações ocorrem simultaneamente, podendo ser mantidas, modificadas ou desenvolvidas durante a apropriação do conteúdo.
As estratégias de leitura são procedimentos que envolvem o cognitivo e o metacognitivo, portanto, no ensino, elas não devem ser tratadas como receitas infalíveis ou técnicas precisas. Por isso,



[...] ao ensinar as estratégias de leitura, entre os alunos deve predominar a construção e o uso de procedimentos de tipo geral, que possam ser transferidos sem maiores dificuldades para situações de leitura múltiplas e variadas (SOLÉ, 1998, p. 70).



É fundamental que no ensino da leitura não haja a preocupação com os amplos repertórios de estratégias que as crianças possuem, mas que elas saibam utilizar as estratégias adequadas para a compreensão dos textos que lê. É interessante que o ensino das estratégias de leitura favoreça a formação de leitores autônomos capazes de enfrentar textos com intenções diversas e de aprender a partir desses textos.
A leitura deve garantir a interação significativa da criança com a língua escrita. Aprender a ler é muito diferente e muito mais complexo do que aprender outros procedimentos ou conceitos. “Ler é muito mais que possuir uma rico cabedal de estratégias, ler é sobretudo uma atividade voluntária e prazerosa” (SOLÉ, 1998 p. 90). Isso deve ser levado em conta no ensino da leitura.


BISPO, N. S. As rodas de leitura como estratégia para a formação de neo-leitores.

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